Branding sem foco em vendas é só vaidade
21/09/2026
Ler agoraConheça Serra Pelada, no Pará: o maior garimpo a céu aberto do mundo. História, Pepita Canaã, fotos de Sebastião Salgado e turismo comunitário.
Zé Paulo Gomes 22 de setembro de 2026 25 min de leitura
Há lugares que existem no mapa; outros, na memória coletiva. Pertenço aos dois. Sou filha do sudeste do Pará, no distrito que hoje vocês chamam de Curionópolis. Esta terra vermelha e densa carrega uma história que ultrapassa qualquer comparação razoável. Não procure nada parecido comigo. Nem mesmo as pirâmides do Egito, que reuniam cerca de 20 mil homens, me superam. Sou a maior concentração de trabalho manual que já existiu. Sem máquinas e sem tecnologia, a cava chegou a mais de 80 metros de profundidade, em mais de 24 mil metros quadrados de área. Fui esculpida palmo a palmo por mãos calosas e por pés descalços. Entre 1980 e 1986, mais de 45 toneladas de ouro saíram oficialmente do ventre desta montanha. As estimativas reais chegam a mais de 100 toneladas. Eu sou a Serra Pelada, o capítulo mais extraordinário da história do Brasil.
Para entender essa origem, é preciso viajar no tempo. Em 1979, a dor do brasileiro começava no bolso: na incapacidade de pagar as contas e na inflação que tornava até a alimentação básica um desafio. A dívida nacional explodiu de 12 para 64 bilhões de dólares. O tal "milagre econômico" desmoronou e, a partir dali, a economia começou a encolher ano após ano. Vi o que esses números fizeram com vocês. Fome em mais da metade do país, saques a supermercados e uma seca que matou centenas de milhares no Nordeste. Para evitar o problema da reforma agrária, o governo rasgou rodovias e usou a mata como válvula de escape. Mais de um milhão de camponeses foram forçados a abandonar a terra em que viviam. Uma massa humana empurrada para o norte, sem saber para onde ir. Foi nesse Brasil em ruínas que uma notícia ecoou como promessa. O brilho do ouro era a luz no fim do túnel. Me tornei a maior migração em massa da história. Não fui só um garimpo. Fui a resposta de um povo encurralado por um país que trancou todas as portas. Quando a riqueza emergiu ao sol, não havia economia, emprego garantido ou plano para contornar a situação. Era apenas eu: uma ferida na terra, recheada de ouro. E isso bastou para atrair milhares de homens até aqui. Nos anos 80, mais da metade de todo o ouro que circulava no país brotava deste chão.
A notícia se espalhou como fogo em campo seco. Em janeiro de 1980, um comprador de ouro anunciou o rumor em Marabá. Naquela mesma semana, cerca de mil pessoas chegaram até aqui. Em cinco semanas, havia 10 mil na fazenda de Genésio e outras 12 mil nas propriedades vizinhas. O Jornal do Brasil anotou que a descoberta era o assunto mais falado em Marabá, e a cidade se tornou o ponto de passagem obrigatório de uma migração sem precedentes. A Receita Federal contabilizou formalmente 67 mil garimpeiros durante toda a operação, mas os relatos da época apontam para números bem maiores. Estima-se que 100 mil pessoas passaram por aqui ao longo dos anos de garimpo. Vieram de todos os estados: os que tinham tudo a perder e os que não tinham nada. Agricultores, caminhoneiros, professores, médicos, engenheiros, padres e aventureiros. Chegar até mim não era simples. No início, a única forma de acesso era por avião ou a pé. Os garimpeiros pagavam preços absurdos para que taxistas os levassem da cidade mais próxima até o fim da estrada de terra. A partir dali, caminhavam os 15 quilômetros restantes. Havia ainda os chamados furões, homens que chegavam sem autorização oficial, cortando caminho pela floresta para escapar da fiscalização. Mais tarde, quando o acesso melhorou, caminhões pau de arara lotados vinham de todas as direções. A movimentação foi tão intensa que alterou as rotas de transporte em toda a Amazônia. Os pequenos campos de pouso improvisados mal suportavam o fluxo. Helicópteros militares, comerciais e de contrabandistas faziam fila lado a lado, num aeródromo que parecia um aeroporto de guerra. A vila que cresceu ao meu redor subiu inteiramente com material carregado nas costas, porque nos primeiros meses não havia estrada para veículos. Era um amontoado de barracos e de tendas, erguidos com o que cada um conseguia trazer consigo. Em maio de 1980, já havia 4 mil barrancos registrados na cava. Genésio Ferreira da Silva, dono da fazenda onde o ouro foi encontrado, chegou a cobrar 10% de toda a produção dos garimpeiros antes da chegada do governo. Ficou rico sem tirar uma grama do chão. Aquela multidão não era anônima para mim. Tinha nome, tinha origem, tinha uma história de privação antes de pisar no barro. E tinha uma razão para estar ali que ia além da ganância: era a falta de alternativa num país que havia transformado a Amazônia na única fronteira aberta para quem não tinha para onde ir.
O volume do ouro e das pessoas que desembarcavam aqui era grande demais para ser ignorado. O presidente-general João Baptista Figueiredo declarou Serra Pelada uma questão de segurança nacional. Em abril de 1980, o Exército chegou com homens da Polícia Federal e das Forças Armadas. À frente de todos estava Sebastião Rodrigues de Moura, o Major Curió, veterano da Guerrilha do Araguaia e homem que conhecia a floresta como poucos. Curió recebeu carta branca. Instituiu o hasteamento da bandeira e a execução do Hino Nacional todas as manhãs. Proibiu armas, bebidas, mulheres e maquinário pesado na área. Criou um sistema de registro junto à Receita Federal e determinou que todo ouro extraído fosse vendido exclusivamente à Caixa Econômica Federal, que instalou aqui um posto de compra e de fundição. Para fazer cumprir as regras, organizou os chamados bate-paus, antigos guias militares que passaram a atuar como um grupo paramilitar. O regime implantado era, segundo observadores da época, uma extensão direta da ditadura. A fama de Curió cresceu na mesma proporção que a da Serra Pelada. Os garimpeiros o chamavam de Doutor e de Imperador da Amazônia. No auge das atividades, ele já não pisava mais no chão: visitava a cava apenas de helicóptero, sobrevoando lá de cima aquele formigueiro humano. Mandava de longe e isso bastava. A operação tinha um braço técnico fundamental: a DOCEGEO, subsidiária da Companhia Vale do Rio Doce. Era ela quem processava o ouro, fundia em lingotes e encaminhava ao Banco Central do Brasil, para compor as reservas internacionais do país. Serra Pelada não alimentava apenas os sonhos dos garimpeiros. Alimentava o cofre da nação. O contrabando, no entanto, era expressivo. Com o preço tabelado pela Caixa 15% abaixo do mercado internacional, havia incentivo permanente para desviar o ouro do sistema oficial. Saía daqui escondido em malas, costurado em roupas, carregado em aviões clandestinos. A fiscalização tinha limites. A ambição, não. O que poucos sabem é que a área pertencia juridicamente à Vale, detentora dos direitos minerários desde 1974. E há uma ironia nisso: quando a empresa obteve a concessão, o interesse era o ferro, não o ouro. A riqueza aurífera que sustentaria toda aquela gente estava literalmente embaixo do nariz da maior mineradora do país, sem que ela soubesse. Do ponto de vista legal, a chegada dos garimpeiros era uma invasão. O encerramento da extração manual já estava previsto para 1981. Mas o governo militar não tinha vontade de confrontar a multidão que já estava aqui. Temia que, retirados sem alternativa, parte daqueles homens voltasse à luta por terras, aumentando uma tensão já explosiva. Serra Pelada era também uma válvula de controle social. Curió reforçava, nos discursos matinais, que o trabalho ali era patriótico, que o ouro ajudava a pagar a dívida externa do Brasil. Os garimpeiros cavavam convencidos de que serviam à nação. Em 1982, preocupado com a concentração de poder de Curió no epicentro dos conflitos agrários, Figueiredo o convenceu a se candidatar a deputado federal. Foi eleito com 59 mil votos, dados pelos próprios homens que governava com mão de ferro. Mudou-se para Brasília, mas nunca deixou de mandar aqui. Em maio de 1984, cerca de 20 mil garimpeiros formaram uma assembleia em Imperatriz e em Marabá e deram um prazo ao ministro César Cals para reabrir o garimpo, sob ameaça de invadir a área e de fechar as principais rodovias da região. O governo recuou. Figueiredo pagou à Vale uma indenização de 59 milhões de dólares pelo fim da concessão, com recursos do Tesouro Nacional. O acordo previa o fechamento em três anos, ou quando a cava atingisse a cota 190. Os garimpeiros obtiveram o direito formal de explorar 100 hectares do solo. O contribuinte brasileiro havia bancado, com dinheiro público, a permanência de uma cidade inteira numa ferida aberta no meio da Amazônia.
O acordo de 1984 entre o governo e a Vale previa o fechamento quando a cava atingisse a cota 190, uma medida de altitude que correspondia a aproximadamente 20 metros abaixo do ponto em que os trabalhos estavam naquele momento. Para os garimpeiros, aquele número específico só podia significar uma coisa: era ali que a Vale queria chegar. E se a Vale queria, havia algo extraordinário esperando lá embaixo. A cota 190 ganhou ares de lenda. Muitos passaram a acreditar que ali estaria a maior riqueza de todo o corpo, a concentração mais pura de ouro. Falavam em lajes de 50 toneladas de ouro sólido. Por causa disso, a descida tornou-se desenfreada. Os barrancos eram cada vez mais fundos e sem estrutura. Os desabamentos eram constantes. Em 1985, quando a cava chegou perto da cota 190, as autoridades interromperam os trabalhos e desligaram as bombas de sucção. O tilim, o ponto mais fundo, amanheceu submerso. Após meses de drenagem e de consolidação das paredes, os garimpeiros recomeçaram. Uma nova descida, mais cuidadosa e mais racional. Em 1987, estavam novamente próximos da cota sonhada. Foi então que começaram as sabotagens. Os motores de bomba foram inutilizados com areia e com açúcar nas engrenagens. De um dia para o outro, o segundo tilim amanheceu submerso. Era preciso drenar tudo de novo, derrubar as paredes fragilizadas pela água e reconstruir o acesso. Dias de trabalho apenas para voltar ao ponto anterior. Os garimpeiros cunharam uma frase que ficou na memória: "água no tilim e segurança nos homens". O que veio travestido de política de proteção era, na prática, o símbolo cínico da sabotagem. A cota nunca foi alcançada. E aqui a história guarda outra ironia. Décadas depois, pesquisadores analisaram a geologia mais profunda. Felipe Tavares, geólogo que estudou a Serra dos Carajás no doutorado, concluiu que a laje de ouro puro é um mito. Há ouro, sim. Cerca de 50 toneladas, estimadas no lago atual. Mas está disperso em minúsculos fragmentos de rocha. Não há nenhum filão concentrado à espera de quem o descubra. Para extrair alguns gramas de metal, seria preciso triturar toneladas de pedra e submetê-las a processos químicos de alto custo. A Colossus investiu centenas de milhões de reais para chegar lá e confirmou o que a ciência já suspeitava. Os garimpeiros nunca chegaram à cota 190. E mesmo que tivessem chegado, não teriam encontrado o que imaginavam. O maior tesouro de Serra Pelada nunca esteve no fundo. Esteve, desde o início, na superfície.
Dentro da cava, tudo funcionava com uma lógica própria e implacável. Para entrar legalmente, era preciso ter dois documentos: a carteira de garimpeiro chamada orelha de burro, emitida pela Receita Federal, e a autorização expedida pelos órgãos federais. Quem não tinha nenhum dos dois entrava pela mata. O terreno foi dividido em barrancos de 2 por 3 metros, que, no início, foram conquistados à força. Com a intervenção de Curió, passaram a ser sorteados ou adquiridos. Cada um deles tinha uma escritura informal de posse. Os donos detinham a maior parte dos lucros. Quem achava mais ouro comprava mais terra. Cada setor tinha nome próprio, e os nomes dizem muito sobre o lugar e sobre quem vivia ali. Igrejinha, Serra Velha, Terra Preta, Serrinha, Bico de Papagaio, Boca da Grota Rica. Havia a Babilônia I e II, o Buraco da Viúva e o PPO. Os garimpeiros mais antigos lembram do Sereno, do Pau da Mentira e das Malvinas. Havia também o Bucetinha, nome que nenhum documento oficial registrava com conforto, mas que todo garimpeiro sabia onde ficava. Os setores eram disputados, negociados e herdados. Tinham donos, tinham história e tinham os mortos deles. Não eram apenas lotes; eram endereços numa cidade que não constava de nenhum mapa. Em cada barranco, trabalhavam entre 10 e 15 homens, com funções bem definidas. O cavador quebrava a rocha na busca por pepitas. O enchedor abastecia os sacos de terra. O apontador, posicionado na base das escadas, registrava a quantidade de sacos retirados e o peso de cada um antes que subissem. Outro apontador ficava no topo, confirmando a chegada e o pagamento proporcional. O apurador lavava a terra na bateia e, depois, tratava o material com mercúrio para separar o ouro do cascalho. Coordenando tudo estava o meia-praça, que determinava onde cavar e recebia entre 2 e 5% do ouro encontrado. Acima dele, o capitalista. Abaixo de todos, as formigas, os carregadores. Chegaram até aqui apenas com a roupa do corpo e com a coragem. Levavam nas costas sacos de até 60 quilos, subindo e descendo as escadas em troca de uma porcentagem sobre o que o barranco produzisse. Sem contrato. Sem garantia. Em um dia típico, uma formiga carregava mais de 1,7 toneladas. Para não cair, seguravam cordas de nylon azul, fixadas nas paredes. Cordas que os garimpeiros da época descreveram como amarradas psicologicamente à vida. Não havia equipamento de proteção nem seguro. Apenas a escada e o sonho de bamburrar antes de acabar o dia.
As escadas de madeira cortadas da floresta eram as veias desta montanha. Sem elas, nada funcionava. Por elas subia e descia tudo: homens, sacos de terra, sonhos, notícias, pepitas e, às vezes, corpos que não chegavam ao topo. Eram improvisadas, altas, úmidas e sujas de lama e de suor. Cresciam conforme a cava se aprofundava, como se conectassem o inferno ao céu. Eram rodovias de mão única que funcionavam em mão dupla. Quem subia cheio cruzava com quem descia vazio, tudo ao mesmo tempo, no mesmo degrau. O silêncio era absoluto, o barulho era o ranger da madeira e a respiração ofegante do esforço. Por tudo isso, os próprios garimpeiros as batizaram: adeus mamãe. O nome não precisava de explicação. Qualquer um que descesse aquelas escadas pela primeira vez sabia que podia não voltar. Havia quedas constantes. O fotógrafo Sebastião Salgado testemunhou um homem cair de 15 metros no fundo enlameado. Quem correu para ajudá-lo chegou tarde demais; ele havia engolido material tóxico suficiente para não sobreviver. Deslizamentos também aconteceram. O maior deles, em julho de 1983, matou 17 homens de uma só vez. Os desníveis criavam paredes instáveis, que cediam a qualquer momento. A cava se aprofundava e o risco aumentava na mesma medida. Em dias de pico, o pagamento por uma jornada de trabalho era equivalente a 1 grama de ouro. Para isso, uma formiga fazia até 60 viagens entre o amanhecer e o anoitecer.
Era 13 de setembro de 1983. O garimpeiro Júlio de Deus Filho trabalhava no Garimpo de Malvina quando a picareta dele tocou algo diferente. Não era uma rocha comum. Não era terra. A montanha lhe entregou uma pedra de quase 150 quilos, formada por ouro Bombril, como chamavam o metal que se quebra com facilidade ao ser retirado do solo. Quando tentaram tirá-la inteira, ela se partiu em vários pedaços. O maior deles chegou a 60,8 quilos, com 90% em ouro puro. Recebeu o nome de Pepita Canaã, a terra prometida. Foi comprada pela Caixa Econômica Federal por 4,4 milhões de cruzeiros, equivalentes a aproximadamente 1 milhão de dólares na época. O Banco Central estima que hoje o valor de mercado dela seria de cerca de 7,5 milhões de reais. Pepita Canaã está exposta na Sala de Ouro do Museu de Valores do Banco Central, em Brasília, como a maior pepita de ouro do Brasil. Mas ela não estava sozinha. Naquele setembro de 1983, quatro dias depois, José R. de Oliveira tirou do chão uma de 39,5 quilos. Em junho do mesmo ano, Albino Lienkim havia encontrado outra, de 42,7 quilos. Três das maiores pepitas já descobertas no mundo inteiro, no intervalo de um único ano, pelas mãos de três garimpeiros diferentes. Das oito maiores pepitas já encontradas no Brasil, sete saíram daqui.
No auge, em 1984, mais de 80 mil pessoas viviam ao mesmo tempo sobre esta terra, mais do que a população total de Marabá. 1983 foi o ano de maior produção, com 17 toneladas de ouro extraídas oficialmente. Os garimpeiros acordavam às 4 da manhã e trabalhavam até as 8 da noite. Comiam carne e farinha. Guardavam os poucos pertences em sacolas de pano. Os barracos onde dormiam eram feitos de palha de babaçu e de lona sobre o chão, e em cada um deles moravam entre 15 e 50 pessoas, com redes atadas umas às outras. Não havia saneamento básico, escola ou posto de saúde. O Estado que declarou Serra Pelada uma questão de segurança nacional não construiu nada para as pessoas que a escavavam. O calor, o pó e a lama cobriam corpos e roupas sem cessar. E havia algo silencioso que exalava do chão, a poeira de monóxido de ferro. Os garimpeiros a respiravam dia após dia. Os pulmões se comprometeram gradualmente. Muitos só perceberam o dano anos depois, quando o garimpo fechou e os corpos cobraram a conta. A malária era uma presença constante no ambiente úmido. O desmatamento destruiu o equilíbrio local, eliminou predadores naturais e transformou a cava num criadouro permanente. A febre amarela também rondava por aqui. A hanseníase chegou a ser tão expressiva que figurou entre os maiores focos do mundo. O HIV e a tuberculose completavam um quadro de saúde pública que o Estado ignorava enquanto o ouro seguia para o Banco Central.
A repressão que reinava na cava criou, 30 quilômetros adiante, o exato avesso dela. Como mulheres, bebidas e festas eram proibidas nos barrancos, a vida foi se instalando às margens da rodovia PA-150, no quilômetro 30. Ficou conhecida como Vila Trinta. Ali, tudo era permitido: bares, prostíbulos, jogos, brigas e bailes que duravam dias. Os preços de bebida e de prostituição acompanhavam os das boates de luxo do Rio de Janeiro e de São Paulo. O dinheiro que saía da cava, em gramas de ouro, escorria pela Vila Trinta em questão de horas. O ditado local resumia bem o lugar: "de dia é 30, de noite é 38", referência ao revólver calibre 38 que circulava livremente na cintura dos garimpeiros. Em busca de fortuna, tendo como moeda de troca o entretenimento, grandes artistas viajavam até lá. Rita Cadillac foi uma delas. Em 1983, se apresentou para um público que pagava em gramas. Relatos dizem que foi a noite mais tranquila que a vila já conheceu. Em 1982, Serra Pelada ganhou a atenção do Brasil com os Trapalhões. O quarteto global desceu os barrancos com as formigas para gravar o filme que bateu recordes de bilheteria. Em meados de 1980, Curió decidiu organizar a Vila Trinta, assumindo a função de administrador. A mesma mão de ferro que ordenava a cava passou a regulamentar o lado de lá. Dali sairia o embrião do município de Curionópolis.
O processo de purificação da terra era devastador. Ela era misturada ao mercúrio, formando a amálgama. Depois, a mistura ia ao fogo. O metal produzia um vapor tóxico e liberava o ouro. Os garimpeiros faziam isso sem proteção alguma, inalando veneno ano após ano. Os sintomas eram silenciosos. Chegavam como formigamento, gosto metálico, zumbido no ouvido, evoluindo para redução da visão periférica e para tremores. O pesquisador americano Bruce Forsberg, que dedicou 30 anos ao estudo da bacia amazônica, identificou populações inteiras com perda de coordenação, surdez progressiva e comprometimento do olfato após a exposição. O que ficou no solo levaria décadas para ser dimensionado. O mercúrio se transforma em metilmercúrio, a forma orgânica mais tóxica dele. É absorvido pelas plantas aquáticas, consumido por peixes, subindo a cadeia alimentar até chegar a quem os come. Pesquisas publicadas na Revista Brasileira de Ciência do Solo concluíram que o impacto causou danos irreversíveis no ecossistema. O lago que hoje ocupa a cava não apresenta biodiversidade. O mercúrio vaporizado subiu para as nuvens e foi transportado pelos ventos. E, quando Serra Pelada foi fechada em 1992, garimpeiros migraram daqui, levando a técnica maldita para o Vale do Tapajós e para a Terra Indígena Yanomami, iniciando um dos maiores desastres de saúde pública do país. O ouro foi embora, mas o mercúrio ficou e continua se movendo.
Sebastião Salgado não foi o único fotógrafo que veio até mim. Mas foi o único capaz de me entender. Outros vieram de câmera na mão e ficaram no alto, onde o suor, a sujeira e a dor não os alcançavam. Registraram o caos, mas nunca foram dignos de conhecer esta terra. Mal sabiam eles que Serra Pelada só se revela para aqueles que têm coragem e humildade. Salgado teve os dois. Em 1986, após seis anos de pedidos negados pelo Major Curió, ele finalmente pisou na lama daqui. Não veio como repórter. Veio como alguém que precisava sentir o peso antes de fotografar. Comeu o mesmo feijão, dormiu no mesmo barraco, respirou a mesma poeira. Quando os garimpeiros suspeitaram que era espião da Vale, ele não recuou. Ficou. E a desconfiança, aos poucos, virou algo raro naquele lugar: confiança. Foram 33 dias. Cada um deles dentro desta montanha. Escolheu o preto e branco porque sabia que a cor o distraía. Queria que os olhos do mundo parassem nos homens, não no espetáculo. Se posicionava abaixo deles para que a câmera os erguesse. Nenhuma imagem dele olha de cima. Voltou a Paris com 400 rolos de filme e com uma certeza: havia testemunhado algo que ninguém podia ignorar. No dia seguinte, os telefones não silenciaram. A série Gold tornou-se um dos trabalhos de fotojornalismo mais premiados da história. O The New York Times incluiu as fotos na lista das imagens que redefiniram a fotografia moderna. Sobre os dias que passou aqui, descreveu ter encontrado uma visão definitiva do que o ser humano é capaz quando não há alternativa. Sebastião Salgado nasceu em Aimorés em 1944. Formou-se em Economia em 1967. Em 1969, fugiu para o exílio em Paris, onde achou a câmera no início dos anos 1970. Morreu na mesma cidade em 23 de maio de 2025, aos 81 anos. Deixou sobre Serra Pelada o registro visual mais poderoso já feito no Brasil e uma pergunta que ficou sem resposta: o que dizer desse metal amarelo que leva homens a abandonar tudo por um sonho?
Antes de continuar, você precisa conhecer o idioma daqui. Bamburrar era encontrar ouro de verdade. O garimpeiro que bamburrava mudava de vida numa tarde. Blefar era sair sem nada ou, pior, gastar tudo tentando. Formiga era quem carregava o peso nas costas, subindo e descendo as escadas sem ter um barranco próprio. O Capitalista era o dono do barranco; era quem ficava com a maior parte do que a terra produzia. Meia-praça era quem coordenava o trabalho e recebia uma fatia do que organizava. Furão era quem entrava sem autorização, cortando caminho pela mata para escapar da fiscalização. Tilim era o ponto mais fundo da cava, onde a água chegava primeiro e o ouro prometia mais.
A terra também tinha nome. Pedra Preta era a rocha compacta e escura do sul da cava, dura, mas cheia de fraturas. Imprevisível. Burro Preto guardava ouro às vezes; quando a música de Almir Rogério tomou conta do rádio, virou Fuscão Preto e ninguém mais usou o nome antigo. Lagrese era o que ficava logo abaixo do cascalho; por estar tão perto do ouro, incorporava parte dele. Melechete era a lama que grudava, cobria e marcava; quem trabalhava no melechete saía irreconhecível. Rocha Farinha desmanchava com facilidade; o apelido vinha da textura, mas podia enterrar um homem.
Bamburrado de verdade era raro. Ser blefado era a regra. Os garimpeiros se dividiam entre esses dois destinos, e a distância entre eles era questão de sorte ou de minutos. O que vou te contar agora são as histórias dos bamburrados. Homens que, por algumas horas ou por alguns anos, figuraram entre os mais ricos do Brasil. O indígena José Mariano dos Santos tirou 400 quilos de ouro antes dos 30 anos. Quando bamburrou, foi ao aeroporto coberto de lama. A atendente recusou a passagem. Índio abriu o saco de dinheiro e fretou o avião inteiro. No caminho, lembrou-se do chapéu esquecido, mandou voltar, buscou e partiu. Correu o país com a fortuna no bolso e morreu há poucos anos na pobreza, cavando no próprio quintal. Chico Osório, Francisco Osório Nery, encontrou 647 quilos em 1982, o que equivale hoje a 194 milhões de reais. É o segundo maior bamburrado. Gastou, reinvestiu na cava e perdeu tudo. Vive ainda aqui, ao redor do lago, cavando com ferramentas manuais. Entrevistado com uma cachaça na mão, declarou: "No Brasil só existem três reis: o rei Pelé, Reginaldo Rossi e Eu." Ivan Barbosa de Almeida Lima bamburrou e ficou. Construiu a vida aqui e hoje administra o próprio ateliê. A esmagadora maioria, porém, via o dinheiro voar. Achavam que o ouro nunca ia terminar. E, assim, quase todos ficaram sem nada.
No final dos anos 1970, uma nova estrela brilhou como extensão e legado do ouro. No quilômetro 30 da PA-275, trabalhadores se instalaram para construir a Estrada de Ferro Carajás. O caos da Vila Trinta se tornaria o município ao qual pertenço como distrito. Em pouco tempo, uma cidade inteira nasceu do movimento, do improviso e da força de quem ficou. Homens, mulheres, crianças, comércio, vida. Uma economia que se expandiu com uma energia que nenhum planejamento urbano era capaz de prever. Em 1981, Curió lhe deu nome: Curionópolis. Hoje, há quem queira mudar para Serra Leste. O debate divide a população. Mas só quem tem valor gera disputa. E Curionópolis sabe todo o valor que tem. Em 10 de maio de 1988, emancipou-se de Marabá. Em 1989, Salatiel Almeida foi eleito o primeiro prefeito. No Sudeste paraense, o ouro não construiu apenas riquezas; edificou ruas, escolas, hospitais e uma das cidades mais prósperas e acolhedoras do Pará.
O sinal de que Serra Pelada não era eterna veio em 1981, quando os depósitos superficiais se esgotaram. Em 1983, Figueiredo marcou 15 de novembro para o encerramento, mas Curió articulou e derrubou a data. Em 1984, a produção caiu para 3,9 toneladas. A profundidade tornava o trabalho inviável e a água brotava do fundo. Em 1990 saíram daqui apenas 600 quilos. Em 1991, míseros 13 quilos. Em março de 1992, Fernando Collor decretou o fechamento e devolveu a lavra à Vale. As bombas desligaram. O lençol freático inundou a cava e formou um lago com mais de 600 mil metros cúbicos de água, o equivalente a 250 piscinas olímpicas. Silencioso. Fundo. Sem vida. Mesmo assim, a lenda não morreu. Estudos afirmam que entre 20 e 50 toneladas continuam submersas. Após anos de disputas, a canadense Colossus Minerals venceu a concorrência internacional prometendo extrair o fundo intocado pela tecnologia. Entre 2007 e 2012, gastaram 450 milhões de reais na construção de um túnel subterrâneo de 3,93 quilômetros de extensão, descendo a 400 metros de profundidade, no exato lugar onde outrora cavaram com as mãos. A obra nunca alcançou o coração desta montanha. As águas avançaram mais rápido do que o bombeamento. Em 2012 surgiram denúncias de corrupção. A Colossus faliu em 2013 e as bombas pararam novamente. O túnel milionário foi inundado e Serra Pelada se fechou de vez em 2014. Mais de 45 mil garimpeiros aguardam, até hoje, a resolução dos próprios direitos em disputas judiciais intermináveis.
A vila ainda existe e resiste ao tempo. Não pela qualidade estrutural, mas pelo cuidado das pessoas que decidiram me chamar de lar. Em Serra Pelada, há cerca de 6 mil habitantes, e o que acontece aqui hoje é tão extraordinário quanto o passado. Não pela quantidade de ouro que sai da terra, e sim pela quantidade de vida que ficou em cima dela.
O novo ouro está nas mãos do garimpeiro que virou artesão. Nas telas de quem transformou lembrança em pintura. Nas janelas de quem borda e recebe visitantes em casa. Nos relatos de quem esteve presente e guardou tudo em fotos e em vídeos. Nos poemas de quem fez da palavra uma ferramenta. Nas trilhas guiadas por quem conhece cada palmo deste chão. Nas receitas de quem traduz experiência de vida em sabores únicos.
Somos garimpeiros que viraram contadores de histórias. Somos a comunidade que escolheu ser protagonista da própria história, não apenas o cenário dela.
Dá para começar pelo café da manhã na margem da Grota Rica, o mesmo riacho onde tudo começou. Seguir pelo Pau da Mentira, que desde o tempo do garimpo faz sombra para quem quer bater papo. Visitar as Ruínas da Colossus com os garimpeiros que nunca foram embora. Balançar nas redes do Hotel Serra Pelada, onde os sonhos da corrida do ouro ainda pesam.
Cada real gasto fica na comunidade. Cada história contada fortalece quem a viveu. Cada visita deixa o lugar melhor do que encontrou. Esse ouro não precisa ser garimpado. Está na superfície.
Oficina DIGIT@MEI
E você pode ter acesso aos dois de forma gratuita: o Encontre um MEIo neste site e a oficina em parceria com o SEBRAE Alagoas, Sergipe, Pará e Tocantins.